sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O TEATRO

          Histórias de uma atriz em total esquecimento

Ela sorria. Sorria quase sempre. Era como se não existisse tristeza. Repetia piadas. Ela tinha muita piada. E quando achava que não, escondia-se no seu próprio ser como se não existisse. Enchia-se de um medo constante do que não era mas queria ser. Queria sempre mais. Queria ser feliz e tinha os sonhos mais altos. Mas continuava a sonhar. Preenchia-se com os seus desejos. O teatro. Sonhava em entrar num palco, em passo lento, olhos fechados, corpo quase imóvel, sempre com algum medo. Entrava e quando o pano abrisse via mil cabeças atentas ao que ia dizer. Quase que perde o fôlego para as primeiras palavras. No entanto, há uma força que a invade. Há uma intensidade qualquer que a faz sentir viva. As palavras começam a criar uma sinfonia. A mais bela sinfonia. Ela conseguia ouvir no seu interior os instrumentos da orquestra em total sintonia, no auge da música, que belo dia para subir ao palco!
Já não existia mundo lá fora. Era só ela. Brincava com as palavras e sentia uma vontade de transmitir qualquer tipo de sentimento nas pessoas. Era só isso que importava. Imaginar alguém arrepiado com as palavras, a representação, o que ela queria ser.

As palavras eram demasiado fortes. Imaginava o que a sua mãe tinha dito, aquelas palavras, só aquelas. As palavras de amor que fazem esquecer todos os momentos de escuridão. Ela não conseguia parar de chorar e pensava em usar aquela dor de saudade para a mais bonita tragédia de amor.


Isto não é nada. Devaneios.

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