Nunca
vou ter nada para dizer. Sou tão vazia como eu apenas sei. Não quero, não
pretendo e enche-me de medo a ideia de os outros esperarem algo de mim. Não
esperem nada, para além de existir. Apenas existo, apenas acompanho as vossas
palavras, os vossos gestos, as vossas atividades. Apenas existo. Como é tão
difícil existir quando não tens nada para oferecer. Entristece-me as conversas
intelectuais que pairam no ar, quando dizem palavras em perfeita sintonia,
essas melodias recheadas de conteúdo e eu parada no tempo. A navegar nos meus
pensamentos em guerra constante. Eles empurram-se, destroem-se, matam-se. Matam-me
no interior. Quando penso que não sei falar, quando tento afinar o instrumento
na orquestra. Não sou, repito, o que vocês esperam de mim. Sou uma máquina. Sou
uma máquina em tristeza constante. Tristeza destes sonhos que me fazem cair. O
meu corpo fica imóvel no vazio. Os pensamentos, mais uma vez, confusos no ar.
Os meus movimentos são estranhos e viro-me com dificuldade para outra posição.
São as paredes amarelas, a música, o cheiro da vela acesa que me fazem sentir
perdida na vida. As memórias atravessam-me como um canhão e talvez hajam
lágrimas perdidas no rosto sem expressão. Continuo no chão, depois da queda do
sonho mais alto. E é quando sinto que a vida é breve que a morte se torna
avassaladora, o meu próprio inferno. Este inferno que me diz: nunca vais ser
realmente feliz.
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