a noite entra levemente
os dias parecem não ter fim, os livros
enaltecem o meu ser, do meu corpo inerte, atento ao rio passar
o douro enche-se de cores, os casais sentam-se na pedra do palácio
e beijam-se
e abraçam-se
e contam histórias de amor sem fim
o amor... tantas as palavras que diria por amor
mas já pesa um coração de pedra, uma espera de quem não sou
sinto uma ânsia repentina
e os sonhos, o medo, a esperança que é pouca
entram na minha alma e sofro
sofro do medo de não ser
sofro do medo de não querer
dou voltas na cama, puxo o lençol, fumo um cigarro
e as dúvidas não param de aparecer
os sonhos destruídos
as vozes na minha cabeça, familiares, dolorosas
a voz da mãe a ecoar no meu cérebro
diz que não dá, diz que acabou
e o amor?
onde é que ele está?
escondo as lágrimas de um presente que não é meu
finjo sentir, esforço o pensamento, atiro o querer
já me fartei de tanto sentir, os outros que o digam, sentir
tantas, tantas, tantas... oh, o que eu sinto não é meu
a vida tornou-se um buraco negro e não pára de crescer
suga a minha alma, atira-me para o escuro
e mais uma vez, deixei de saber quem eu sou
(se ao menos soubesse escrever
ditar as palavras do meu sofrimento
para os outros, esses que ambiciono ser, percebessem a minha dor)
hoje tenho vontade de chorar
sinto um nó na garganta, apetece-me arrancar
fugir
desistir
chorar
e quando puxo pelas palavras para me fazer sentir
sinto um choro propositado
dos sonhos que não são meus
maldita vida que me fez querer quem não sou
adeus.