O
TEATRO
Histórias de uma atriz em total
esquecimento
Ela
sorria. Sorria quase sempre. Era como se não existisse tristeza. Repetia
piadas. Ela tinha muita piada. E quando achava que não, escondia-se no seu
próprio ser como se não existisse. Enchia-se de um medo constante do que não
era mas queria ser. Queria sempre mais. Queria ser feliz e tinha os sonhos mais
altos. Mas continuava a sonhar. Preenchia-se com os seus desejos. O teatro.
Sonhava em entrar num palco, em passo lento, olhos fechados, corpo quase
imóvel, sempre com algum medo. Entrava e quando o pano abrisse via mil cabeças
atentas ao que ia dizer. Quase que perde o fôlego para as primeiras palavras. No
entanto, há uma força que a invade. Há uma intensidade qualquer que a faz
sentir viva. As palavras começam a criar uma sinfonia. A mais bela sinfonia. Ela
conseguia ouvir no seu interior os instrumentos da orquestra em total sintonia,
no auge da música, que belo dia para subir ao palco!
Já
não existia mundo lá fora. Era só ela. Brincava com as palavras e sentia uma
vontade de transmitir qualquer tipo de sentimento nas pessoas. Era só isso que
importava. Imaginar alguém arrepiado com as palavras, a representação, o que
ela queria ser.
As
palavras eram demasiado fortes. Imaginava o que a sua mãe tinha dito, aquelas
palavras, só aquelas. As palavras de amor que fazem esquecer todos os momentos
de escuridão. Ela não conseguia parar de chorar e pensava em usar aquela dor de
saudade para a mais bonita tragédia de amor.
Isto não é nada. Devaneios.